domingo, 1 de julho de 2012
No país da "paciência"
quarta-feira, 27 de junho de 2012
PORTUGAL VISTO POR LOBO ANTUNES
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, aindacompramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos,culpamos logo os governos.Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem paranós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóicosilêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor DiasLoureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que nãoesteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos,que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho nãoestendem a mão à caridade.O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que istoda bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejamhonestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Unssacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. Osenhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, porpura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos aindapiores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem ameter os beneméritos em tribunal.Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherádecerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já oestou a ver:- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedoque é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossainterminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos,gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte edemais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidoresescrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, ospatriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nosobrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dosbanquetes de bem-aventuranças da Eternidade.As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem,penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz deenxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas,ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Maspassaremos semdificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam,por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência desteacto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho àsua frente indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!Loureiro para o Panteão já!Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tãofeia. Para a Batalha.Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas depacotilha com que os livros de História nos enganaram.Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Hajasentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanhade perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta poucavergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estãopresos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhorCarlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro noConselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar D. José que, aliás,era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar doMarquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dosSindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, porfavor deixem de pecar.Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. Etereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam estesolzinho.Agradeçam a Linha Branca.Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.Abaixo o Bem-Estar.Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam aaumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olharaquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com aalcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Nãocomem carne mas podem comerlábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras dasmulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha,e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e,enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade,a Academia Francesa.Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e osex-ministros a tomarem conta disto.Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem,não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é queainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma formaque os processos importantes em tribunal a indignação há-de,fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos delitro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos,como é nossa obrigação, felizes.
(crónica satírica de António Lobo Antunes, in Visão abril 2012)
terça-feira, 26 de junho de 2012
NÃO SABIAM?
Quando o British Hospital surge numa conversa, tendemos a perguntar: o de Campo de Ourique ou o das Torres de Benfica?
O hospital pertence ao Grupo Português de Saúde desde
o início dos anos 1980. O Grupo Português de Saúde pertence ao universo da
Sociedade Lusa de Negócios, a tal que tinha um banco dentro. Exactamente:
o BPN.
O banco serviu para financiar a compra do British. Um
fiasco. Entre 1999 e 2009, o British recuou de uma média anual de 12 mil
consultas para cerca de 1800. Entre 2004 e 2007, o presidente do Grupo Português
de Saúde foi o economista José António Mendes Ribeiro, o qual, quando saiu do
grupo, deixou um passivo de perto de cem milhões de euros.
Pois foi precisamente José António Mendes Ribeiro que
o ministro da Saúde, Paulo Macedo, foi buscar para coordenar o grupo de trabalho
que vai propor os cortes a aplicar no Serviço Nacional de
Saúde.
Isto, que podia ser uma charla dos Malucos do Riso, é
o ponto em que
estamos.
Há tantos
burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando, se
a burrice não será uma ciência.
'' António Aleixo''
'' António Aleixo''
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FASCISMO ECONÓMICO
segunda-feira, 25 de junho de 2012
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